Os desafios para o agronegócio brasileiro exigem proatividade no mercado internacional

Com o tema central “Exportar para Sustentar”, o 17º Congresso Brasileiro do Agronegócio – iniciativa da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e da B3-Brasil Bolsa Balcão – foi realizado em 6 de agosto, na capital paulista. Os debatedores e palestrantes, seja analisando a conjuntura, apontando riscos e desafios ou fazendo projeções, tiveram alguns temas em comum, como custo de frete, sustentabilidade, infraestrutura, instrumentos e políticas de financiamento da produção, taxas de juros, segurança jurídica, relacionamento entre os Estados Unidos e a China, acordos comerciais internacionais e peculiaridades da globalização. Ênfase especial foi dada ao fato de que recursos para o agronegócio deixaram de ser problema para os produtores, inclusive para pequenos e médios.

Já na abertura, os presidentes das instituições realizadores do CBA 2018 deram o tom que norteou a grande maioria das discussões. Luiz Carlos Corrêa Carvalho, presidente da Abag, por exemplo, ressaltou a necessidade de o Brasil atentar para o risco da adoção de medidas protecionistas que podem isolar o país no cenário mundial. Alertou, também, para a necessidade de o Brasil e o Mercosul atuarem no fortalecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC). Como argumento, citou dados da própria OMC, que sinalizam como consequência de uma guerra comercial o recuo do PIB global em mais de dois pontos percentuais.

Em seu pronunciamento, Carvalho listou os vários pontos fortes que o agronegócio brasileiro tem para consolidar sua posição de líder mundial na produção de alimentos, fibras e energia: “Nossa grande efetividade para assegurar ganhos constantes de produtividade é o agro brasileiro estar baseado em ciência, tecnologia e competência do produtor agrícola. Foi isso que fez com que o Brasil, em 40 anos, passasse de país importador de alimentos para um dos maiores exportadores do mundo e o primeiro gigante mundial na agricultura tropical. As expectativas para os próximos dez anos, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, é muito relevante para o Cone Sul”.

A diversificação de recursos para financiamento do agronegócio foi o foco da saudação do presidente da B3, Gilson Finkelsztain. Segundo ele, nesse sentido, “a área de mercado de capitais brasileiro tem tido grande evolução nos últimos anos. O melhor exemplo disso foi a consolidação dos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), afinal de contas, no ano passado eles representaram uma movimentação de R$ 30 bilhões, um volume que foi o dobro do ano anterior”, informou.

Outro ponto que mereceu destaque e foi lembrado pelo ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, durante a abertura do evento, tem relação com a agenda de negociações do Itamaraty, que engloba acordos com Japão, Canada, Coreia do Sul e a Aliança do Pacífico, assim como a revitalização dos acordos comerciais do Mercosul. Recomendando atenção especial à luta contra as barreiras sanitárias e fitossanitárias, Nunes frisou que em termos de sustentabilidade o Brasil é uma referência e não precisa receber lição de nenhum país: “Há ainda muita coisa a ser feita, mas nossa produção agrícola preserva mais de 60% da cobertura vegetal, original, inclusive”, disse.

Após palestra de abertura de Sergio Amaral, embaixador do Brasil em Washington (EUA), sobre os impactos da geopolítica e do mercado internacional para o Brasil, foram desenvolvidos três painéis, com empresários, representantes de instituições financeiras, consultores e acadêmicos, além de  Edwini Kessie, diretor da Divisão de Agricultura e Commodities da OMC, e do embaixador Alexandre Parola, representante permanente do Brasil na OMC. Os painéis versaram sobre fontes de financiamento para o agronegócio, limites e oportunidades para o comércio exterior e  novo governo e prioridades para 2019.

Geopolítica e mercado Internacional

Ampliar e manter a produtividade e dar um salto em termos de internacionalização, exportando não apenas alimentos, mas também tecnologias e serviços da Embrapa e de outras empresas privadas, financiando, dessa maneira, novos avanços e garantindo uma presença maior em mercados, com capital e necessidade de tecnologia e know-how. Em resumo, esses são os desafios a serem enfrentados pelo agronegócio a curto e médio prazos segundo  Sergio Amaral, embaixador do Brasil em Washington. Em sua palestra, após citar a tendência de crescimento da demanda por alimentos principalmente em países do continente africano e do sudeste da Ásia, destacou a preocupação global de aumentar produção e produtividade, buscando ter mais acesso às tecnologias e visando à segurança alimentar.

Esse quadro levou-o a questionar o papel a ser assumido pelo agronegócio brasileiro: “Vamos assistir como espectadores esse processo ou devemos participar como detentores de tecnologia, know-how, equipamentos? Certamente, outros países seguirão por esse caminho, trabalhando para estar nesses mercados com maior potencial. Assim, para alcançar essas metas no futuro, o Brasil precisará enfrentar desafios internos, como redução do custo de produção e melhorias urgentes em infraestrutura e logística. Para se tornar um grande exportador, é preciso infraestrutura adequada para o transporte de toda produção do agronegócio, e esta deve ser a prioridade do novo governo”, acrescentou, destacando que pelas vantagens competitivas frente a outros países – recursos naturais abundantes, área para expandir a produção, tecnologia e inovação para aumentar a produtividade – o Brasil é candidato natural para atender essa demanda de alimentos no mundo, situando-se inclusive à frente da China.

A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China também foi lembrada por Amaral e definida como uma oportunidade a ser aproveitada, pois “o País havia perdido o trem das relações comerciais internacionais em governos anteriores e, em decorrência da política adotada pelo governo Trump, o trem parou e nosso país, agora, tem a oportunidade de embarcar neste trem, por meio do Itamaraty, que reiniciou a negociação por acordos com diversos blocos e países”, afirmou, ressaltando que, nesse história, “não somos alvo, mas sofremos as consequências de forma indireta. Se os chineses impuserem sanções, por exemplo, na exportação da soja americana, os chineses precisarão de outros mercados para suprimir a demanda. Desse modo, o Brasil pode ser beneficiado, juntamente com a Argentina. Em contrapartida, se a China fechar um acordo com os Estados Unidos, pode ser que percamos um mercado importante”, preconizou.

Oportunidades

Essa dualidade resultante da batalha comercial entre Estados Unidos e China foi retomada na mesa redonda sobre limites e oportunidades para o comércio exterior. A posição dos debatedores sinaliza para um benefício imediato para o agronegócio brasileiro, com o aumento das vendas de grãos para o mercado chinês. No entanto, a médio e longo prazos, essa disputa – na visão dos participantes do segundo painel do congresso – pode ser menos benéfica em resposta aos investimentos chineses para redução de sua dependência da compra de soja, afinal, na atualidade, a produção da China se limita a 15% de sua necessidade. A alternativa daquele país pode vir a ser decorrente dos investimentos que estão sendo praticados em projetos de dessalinização de água e em energia solar.

A isso, os painelistas somaram a expectativa de que, no longo prazo, a demanda pode vir a ser reduzida em resposta à esperada desaceleração econômica mundial, que afetará o crescimento de renda chinês. Listaram, ainda, como risco a ser enfrentado pelo Brasil com a disputa entre China e Estados Unidos, a falta de derivados de soja no mercado doméstico para abastecer a indústria de proteína animal, pois a China importa 70% do mercado mundial de soja e tem potencial para sugar toda a produção sulamericana, o que criaria a necessidade de o Brasil ter de importar derivados de soja para atender a demanda interna.

Financiamento da produção

Recursos financeiros, de acordo com os participantes do painel sobre fontes de financiamento para o setor, existem e deixaram de ser um problema para o produtor. Alguns instrumentos contribuem para isso, como o lançamento da Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) que transformou o mercado e propiciou evoluções em termos de financiamentos, fazendo com que o crédito rural no futuro esteja mais direcionado para o pequeno e médio produtor, enquanto que as grandes empresas se voltarão para o mercado de capital. Também foi lembrada a criação da Cédula do Produtor Rural (CPR) Digital e ajustes em regulamentações.

Lado a lado com o financiamento, o subsidio é tema recorrente. A posição dos participantes do painel tende à reavaliação das políticas existentes para que atenda fundamentalmente locais ou para produtores que têm dificuldade de captação de recursos.

A segurança jurídica – ou a falta dela –, no entanto, ainda é um complicador. A solução apontada está na definição de uma um conjunto legal que dê conforto jurídico aos investidores, principalmente para estimular a reconstrução e ampliação da infraestrutura, uma das áreas que mais prejudica atualmente a produtividade do agronegócio brasileiro e que, de acordo com os palestrantes, será o grande motor do crescimento futuro. Para isso, além da segurança jurídica, é fundamental a realização de projetos mais aprimorados de desenvolvimento e execução de obras de infraestrutura.

Homenagens

Como tradicionalmente acontece, o Congresso Brasileiro do Agronegócio é palco para entrega de duas premiações: Norman Borlaug e Ney Bittencourt de Araújo.

O Prêmio Norman Borlaug, nesta edição, ficou com a consultora em Biossegurança e Biosseguridade, Leila dos Santos Macedo, que é bacharel em Química, mestre e doutora em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz no tema Biossegurança e de 1995 a 1999, fez parte e presidiu a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), período em que teve contribuição decisiva para dissipar conflitos entre os diversos órgãos relacionados com a questões de biossegurança. Foi durante sua passagem pela Comissão, que o primeiro transgênico foi aprovado no Brasil.

Para o Prêmio Ney Bittencourt de Araújo, o homenageado foi o Presidente da CNA – Confederação Nacional da Agricultura, João Martins da Silva Junior. Pecuarista, com 50 anos de experiência na área, é graduado em Administração de Empresas e foi fundador e primeiro tesoureiro da Central de Cooperativas de Leite da Bahia. Na década de 1980, foi vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia, entidade que veio a presidir em 2000. Exerceu cargos nas direções do Sebrae – Bahia, Senar-BA, no Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia, entre outras instituições.

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