ESPECIAL – Melhorar comunicação com sociedade e atenção a hábitos do consumidor: assuntos recorrentes no CBA 2019

Durante dez horas ininterruptas, no dia 5 de agosto, cerca de 900 inscritos – empresários, líderes setoriais, autoridades públicas ligadas aos governos federal, estadual e municipal, diversos parlamentares, além de profissionais ligados ao agro – abriram-se à reflexão sobre o momento decisivo do agronegócio, tema central do Congresso Brasileiro do Agronegócio (CBA 2019), promovido em conjunto por ABAG – Associação Brasileira do Agronegócio e B3 – Brasil, Bolsa, Balcão.

Segmento em três painéis – Redução do Custo Brasil, Mecanismos Financeiros e Pilares para o Futuro do Agro – apresentados por cerca de 20 especialistas dos diversos segmentos relacionados com os diferentes elos da cadeia produtiva da agropecuária brasileira (ex-ministros, economistas, executivos e pessoas de destaque no cenário nacional), o CBA 2019 foi marcado por amplos debates sobre a necessidade premente de o meio agropecuário melhorar sua comunicação com a Sociedade.

O foco sugerido para esse diálogo com a Sociedade compreende a divulgação de aspectos positivos e diferenciais que tornam o agro brasileiro um caso de sucesso mundial, destacando a revolução realizada nos últimos 40 anos, com o agronegócio assumindo posição de destaque em termos mundiais na produção de alimentos, fibras e energia.

Os aspectos mais destacados dizem respeito à produção científica de instituições nacionais do setor, biotecnologia, agricultura digital e precisão, agritechs e inovações tecnológicas, empreendedorismo dos agricultores. Juntos, contribuíram que o Brasil garanta a segurança alimentar nacional e alimente cerca de 1,2 bilhão de pessoas no mundo. São, ainda, fatores determinantes para situar o País entre os principais produtores mundiais em várias culturas fazendo uso de menos de 8% das terras cultiváveis, situando-se como terceiro maior exportador de itens do agronegócio, presente em 162 países de todos os continentes.

Abertura

Desde os primeiros pronunciamentos, já na sessão de abertura, esses temas se fizeram presentes, mas foram especialmente na fala da titular do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina – durante a cerimônia inicial e também na entrevista coletiva que concedeu à imprensa presente – e na apresentação do presidente da ABAG, Marcello Brito, assim como nas palavras de outras autoridades presentes. 

Para Brito, a comunicação do agronegócio não está sendo feita de maneira assertiva. “Dessa forma, a percepção ganha mais força do que a realidade. Assim, precisamos de discursos mais centrados e organizados, pautados em ciência e em dados, menos em engajamento”, refletiu, relacionando “desmatamento, acordo entre a União Europeia e o Mercosul e a liberação dos agroquímicos” como temas mais presentes nos últimos meses quanto o assunto é agronegócio. “Porém, as informações divulgadas não refletem, necessariamente, a realidade do nosso setor, o que faz com que haja uma percepção negativa acerca do trabalho realizado por toda a cadeia produtiva”, alertou.

O governador em exercício do Estado de São Paulo, Rodrigo Garcia, afirmou que é notável o avanço do agronegócio nos últimos anos, quando conseguiu reunir os produtores rurais, a indústria, governos e a comunidade científica em torno do desenvolvimento tecnológico, da pesquisa e inovação, a fim de obter maior produtividade. “Se há alguns erros em termos de comunicação, o agro conseguiu muito em termos de produção. Hoje, nosso país possui o maior potencial agrícola do mundo”, disse. “Não podemos perder essa janela de oportunidades para destravar o Brasil, por isso temos que aprovar outras pautas importantes, como a reforma tributária, que são tão necessárias para a competitividade da nação e do agro”, comentou. 

Mas foi a ministra Tereza Cristina quem mais discorreu sobre o tema, informando, inclusive, que o Mapa está alinhando entre os seus trabalhos o combate à desinformação e a divulgação da segurança alimentar. 

“Nessa fase de transição pelo qual passamos, precisamos estar integrados, precisamos de ações unificadas a favor do agronegócio e do Brasil. E isso passa por uma boa comunicação, com todos falando na mesma direção. É inadmissível que o agronegócio brasileiro seja bombardeado, em decorrência da desinformação. Assim, tenho a convicção de que estamos fazendo o melhor para nosso país”, enfatizou a titular do Mapa.

Em seu discurso, a ministra ainda diagnosticou que a agricultura brasileira vem sendo afetada por questões tais como o desequilíbrio das forças internacionais e falta de uma comunicação eficiente sobre o que vem sendo feito pelo setor, seja do ponto de vista ambiental como no aspecto da segurança alimentar. 

Também citou a necessidade de os produtores e as instituições do setor estarem atentar a estratégias e tendências do novo consumidor e de novos mercados, dialogar com a sociedade e com a Imprensa, esclarecendo sobre os temas em que há muita desinformação e pouco conhecimento técnico, assim como a comparação de coisas que não semelhantes. “Temos de trabalhar bioenergia, orgânicos e outros temas, pois há espaço para tudo, mas não pode ter preconceito”, conclamou a ministra.

“Ninguém é mais sustentável que o Brasil, e o Mapa trabalha para que o tema ambiental abra e não reduza mercados ao Brasil” – frisou Tereza Cristina, citando dados oficias: “Cultivamos apenas 7,8% do território, conforme estudo da Embrapa, confirmado pela Nasa. Cerca de 30% do território nacional são unidades de conservação e terras indígenas. O último relatório da ONU sobre áreas protegidas do mundo afirma: o Brasil é que tem a maior área protegida do planeta. Essas realidades fazem parte de nossa sustentabilidade, precisam ser conhecidas e reconhecidas aqui e no exterior”.

A expansão de área de produção, daqui para a frente, explicou a ministra, terá como base o avanço das lavouras de grãos sobre pastagens degradadas. “Com tecnologias de ponta e tendo a sustentabilidade como pano de fundo, acredito que o Brasil será o maior, o mais competitivo e o mais sustentável produtor de alimentos do mundo em 2030”, disse, ao destacar que “a competitividade dependerá de técnicas de edição genômica (New Breeding Technologies – NBT), da bioeconomia (uso intensivo de bioinsumos, química verde, fármacos e compostos bioativos, derivação da biomassa), do uso sustentável dos recursos naturais, da redução do desperdício de alimentos, da gestão de risco climático e da capacidade de agregar valor à produção”.

E mais: o avanço da agricultura digital, com o uso de sensores, drones, internet das coisas, inteligência artificial, análise de dados e o estudo e conhecimento aprofundado dos microbiomas, agricultura de precisão e a convergência tecnológica (bio, nano e geotecnologias), também são diferenciais. “O aumento do número e o crescimento em participação no setor agrícola das chamadas agritechs (startups ligadas ao agro) está ampliando a competitividade, a sustentabilidade e a produtividade no campo”. E adiantou que a transformação digital movimentará US$ 90 bilhões em 2030, seguindo uma tendência de crescimento de 16% ao ano.

Outros pronunciamentos – Já o presidente da B3, Gilson Finkelsztain, reafirmou a importância do Congresso Brasileiro do Agronegócio como um espaço para o debate dos temas mais relevantes, que vai contribuir para o desenvolvimento do agronegócio nacional, com a participação de toda a cadeia produtiva. O o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), Almirante Sergio Segovia, por sua vez, frisou a necessidade de “pensar o comércio exterior a longo prazo e dar ao agro a atenção que merece, como pilar estratégico da agência, pois a Apex congrega da proposta de manter o protagonismo do agronegócio no mundo”.

Ainda participaram da solenidade de abertura do Congresso Brasileiro do Agronegócio, o deputado federal Alceu Moreira, presidente da Frente Parlamentar do Agronegócio, e o presidente da SP Negócios, Juan Quirós.

Palestra internacional

A palestra inaugural ficou a cargo de Jingtao (Johny) Chi, chairman da Cofco Internacional, e versou sobre O Mercado Chinês e a Produção Sustentável do Brasil. O ponto alto de sua apresentação envolveu a divulgação de que a trading chinesa projeta crescimento anual de 5% nos próximos 5 anos das suas importações de grãos do Brasil. 

No entender do palestrante, a tendência para o futuro é a de haver um estreitamento ainda maior do intercâmbio comercial entre a China e o Brasil. “A população chinesa vem mudando seus hábitos alimentares e, com o ganho de poder aquisitivo, consumirá cada vez mais proteína animal, o que abre boas perspectivas para os produtores brasileiros”, afirmou Jingtao Chi. Salientou ainda que, cada vez mais, aumenta a preocupação com a questão ambiental. “Vivemos uma transição na agricultura mundial para um modelo mais sustentável”. A Cofco tem adotado ações para estimular e premiar produtores que preservam o meio ambiente. 

Custo Brasil 

O primeiro painel do Congresso Brasileiro do Agronegócio – sob a mediação do jornalista Willian Waack – tratou dos principais fatores que impactam o Custo Brasil, como por exemplo, a infraestrutura deficiente, a alta carga tributária e a instabilidade política que afasta os investimentos. O presidente da Yara Brasil, Lair Hanzen, destacou que a disparidade de valores dos tributos cobrados em cada estado é tão grande, que influencia na estratégia de distribuição das indústrias do agronegócio. Isso significa que, em alguns casos, os locais escolhidos para serem a base da distribuição em uma região dependem mais da tributação do que da logística.

O diretor do Centro de Cidadania Fiscal (CCiF), Bernard Appy, corrobora com a avaliação de Hanzen e acrescenta que o ICMS é um dos tributos que mais impactam no Custo Brasil e ele não está contemplado no projeto de reforma da previdência. “Entendo que a elevada carga tributária não penaliza a empresa, mas sim o consumidor final”, afirmou Appy. “O agro é muito competitivo da porteira para dentro e a função do governo é não atrapalhar, sobretudo na área tributária”, acrescentou.

O presidente do Instituto CNA, Roberto Brant, avaliou ainda que as limitações do crédito rural também aumentam o Custo Brasil. “Acho um equívoco diminuir a participação do Banco do Brasil no setor. Os bancos privados ainda não estão estruturados completamente para absorver essa demanda. Assim, é necessária a criação de novas ferramentas de crédito, compatíveis com a grandeza do agronegócio e o retorno que o segmento gera para a economia”, reforçou.

No caso da logística, Brant relembrou que a infraestrutura rodoviária foi concebida há muito tempo para atender, incialmente, a economia do Sul e do Sudeste do País. “A maior necessidade de infraestrutura rodoviária e ferroviária está, hoje, situada na metade norte do nosso país. No entanto, tudo ainda é muito lento, além das licenças ambientais que, em algumas situações, são um obstáculo para as obras”, acrescentou.

O diretor de Operações Supply Brasil da Syngenta, Jorge Buzzetto, acrescentou ainda que estudos mostram que, para se igualar aos Estados Unidos – um dos principais concorrentes do Brasil na área do agronegócio – na questão logística, seria necessário o investimento de aproximadamente R$ 1 trilhão. “E eles não são os melhores em termos de logística, sendo o 14º do mundo”. Buzzetto ainda destacou que na área de defensivos agrícolas um fator que impacta o Custo Brasil é o registro do produto. 

Mecanismos Financeiros

O Painel 2, que tratou de Mecanismos Financeiros, colocou os representantes dos principais bancos junto com a B3 e um consultor jurídico para debater crédito para o produtor, além de também ter sido moderado por Waack.

“Acredito que, com a queda dos juros da Selic, estamos abrindo uma janela macroeconômica importante para um novo modelo de crédito e de gestão de risco”, afirmou o advogado Renato Buranello. O diretor de Agronegócios do Itaú BB, Pedro Barros Barreto Fernandes, concordou com Buranello e acrescentou que, realmente, é uma grande oportunidade para o agronegócio porque ter taxa básica de juros baixa significa uma mudança estrutural. “No entanto, para formar uma linha de financiamento, existem outros fatores, como o custo de observância (fiscalização)”.

Já a condição para baixar o spread, segundo o diretor de Agronegócios do Santander, Carlos Aguiar Neto, é ter concorrência na oferta de crédito. “Isso se dá quando os agentes querem emprestar para o setor, com as mesmas condições, e assim o produtor possa escolher onde captar os seus recursos”, afirmou.

O diretor de Agronegócios do Bradesco, Roberto França lembrou que o recurso obrigatório possui a taxa mais barata do mercado (8,5%) e o recurso livre tem uma taxa superior, pois é necessário inserir o spread bancário. Porém Aguiar Neto salientou que uma vantagem do recurso livre é que ele não possui amarras, podendo sair de um dia para o outro. Já Juca Andrade, vice-presidente de Produtos e Clientes da B3 disse que uma parte importante do spread bancário está no custo de recuperação de crédito

Pilares para o Futuro

A sustentabilidade é uma tendência mundial, que vem englobando todos os setores da economia, incluindo o agronegócio. Se o segmento alcançou um alto índice de produtividade, com a aplicação de tecnologia; agora é o momento de reforçar o aspecto sustentável da produção nacional. “A sustentabilidade é muito favorável ao Brasil e à agricultura. Ela insere um novo padrão e dissolve a dicotomia de que ou há conservação ou há produção. Hoje, é possível ter produção e conservação, com rentabilidade”, enfatizou Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), no painel Pilares para o Futuro do Agro, durante o Congresso Brasileiro do Agronegócio, que reuniu mais de 1000 participantes em São Paulo, em uma iniciativa da ABAG – Associação Brasileira do Agronegócio e B3 – Brasil Bolsa Balcão.

De acordo com Grossi, o Brasil é uma grande solução para os padrões de sustentabilidade. A pecuária nacional, por exemplo, é sustentável, ao emitir menos metano em relação a de outros países. “Porém, aqui ainda precisa combater fortemente o desmatamento ilegal, que é o grande vilão da sustentabilidade ambiental. Mas, acredito que não é algo muito difícil de ser resolvido, basta combater a criminalidade”, disse.

A presidente do CEBDS ainda ressaltou a importância de uma maior integração entre a inovação e a sustentabilidade, ao afirmar que a Agricultura 4.0 é uma realidade no país e mais avançada que em outros países, como nos Estados Unidos.

Para Douglas Ribeiro, diretor de Marketing da Corteva Brasil, há uma conexão total entre a inovação e a sustentabilidade, com conectividade. “Se pensarmos no agronegócio nacional, o produtor brasileiro sempre optou por inovação e tecnologia, já que crescemos com produtividade e não com área agricultável”, falou.

No sentido da conectividade, Ulisses Thibes Mello, diretor da IBM Research Brasil, destacou a questão da digitalização no campo. “Hoje nós temos a sensorização do campo de várias formas. Um trator, por exemplo, tem mais de dez sensores, além do computador de bordo. Ano passado, foram lançados mais de dez satélites com resoluções diferentes. Tudo isso está possibilitando criar gênios digitais, ou seja, a partir de uma imagem do campo é possível fazer várias coisas. E essa transformação digital vai ampliar a produtividade e a rastreabilidade e diminuir as perdas de produção”, explicou.

Em relação ao tema da infraestrutura, o país tem de pensar de forma mais estratégica. O professor da Fundação Dom Cabral, Paulo Resende, lembrou o que está acontecendo com os países que são os principais competidores do agro brasileiro. “No mundo, o que se faz é buscar o equilibro entre armazenagem e transporte. No agro brasileiro, 42% dos custos logísticos estão ligados ao transporte de longa distância e 18% estão na área de armazenagem. Nos Estados Unidos o custo do transporte de longa distância é de 30% e 40% é de armazenagem. O que significa, que nós aqui temos de produzir e escoar com rapidez por falta de armazenagem”.

Outro pilar importante para o futuro do agronegócio é a gestão e a produtividade das pessoas. “Atualmente, em um modelo de gestão simplificado, nós temos que ser bons em finanças, análise de mercado e de clientes, em processos e em tecnologias. No entanto, quando se trata de pessoas, por diversos motivos e barreiras, ela torna-se menos importante do que os outros pilares. O mínimo que temos que fazer é que ela tenha a mesma relevância que as demais porque isso está relacionado à produtividade”, finalizou Ruy Shiozawa, presidente do Great Place to Work Brasil.

Homenagens

Além dos debates e discussões, o Congresso Brasileiro do Agronegócio prestou algumas homenagens a profissionais e programas de destaque no agro. Este ano foi prestada uma homenagem especial ao Programa Educacional Agronegócios na Escola, desenvolvido pela ABAG Ribeirão Preto. Foram entregues ainda os prêmios Personalidade do Agronegócio “Ney Bittencourt de Araújo” e Norman Borlaug de Sustentabilidade.

No prêmio Personalidade do Agronegócio, o homenageado deste ano foi o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio fundador da MB Associados. Já o Prêmio Norman Borlaug foi entregue a Marcos Guimarães de Andrade Landell, pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas. No primeiro caso, a apresentação do homenageado foi feita pelo ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, atual coordenador do GVagro da FGV. No caso do segundo homenageado, a apresentação foi feita por Luiz Carlos Corrêa Carvalho, ex-presidente e atual diretor da ABAG. 

O GestAgro360° foi parceiro de mídia do CBA 2019.

Congresso Brasileiro do Agronegócio reúne lideranças, diretores, profissionais e acadêmicos da cadeia do setor
Crédito: Gerardo Lazzari 
Chairman da Cofco International, Jingtao (Johny) Chi, ministra palestra no Congresso Brasileiro do Agronegócio
Crédito: Gerardo Lazzari 
Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, discursa na solenidade de abertura do Congresso Brasileiro do Agronegócio 
Crédito: GestAgro360º
Primeiro painel do Congresso Brasileiro do Agronegócio tratou do tema Redução do Custo Brasil 
Crédito: Gerardo Lazzari
Painel 2 do Congresso Brasileiro do Agronegócio debateu os mecanismos financeiros 
Crédito: Gerardo Lazzari
Congresso Brasileiro do Agronegócio teve como painel 3: Pilares para o Futuro do Agro 
Crédito: Gerardo Lazzari

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