O futuro do setor de Tecnologia em Nutrição Vegetal debatido em Campinas

0
52
ADS

Durante dois dias (10 e 11 de abril), a indústria de Nutrição Vegetal, discutiu o futuro da tecnologia do setor em evento promovido pela Abisolo – Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal, em Campinas (SP), que teve público ao redor de 600 pessoas, entre empresários, investidores, compradores e agrônomos de toda cadeia produtiva da indústria de tecnologia e nutrição vegetal, além de professores, pesquisadores, profissionais de instituições de estado, cooperativas, revendas, consultorias técnicas, agricultores e estudantes de agronomia. 

A temática desenvolvida abordou novos mercados que se abrem para o setor, do sistema de distribuição, de agricultura digital, de tecnologia de aplicação, além de assuntos técnicos e científicos, com palestras sobre inovações tecnológicas, e análise da conjuntura política e econômica e o rearranjo das relações internacionais e os seus impactos no agro. Além do fórum, aconteceu exposição de produtos e soluções de 38 empresas. A próxima edição está agendada para 2021.

“O Fórum Abisolo sempre teve como objetivo central, a difusão das tecnologias do setor, constantemente embasadas na ciência, disponibilizando conteúdo de valor para a tomada das melhores decisões pelos executivos do nosso setor e por todos os participantes da cadeia produtiva da nutrição vegetal. Em todas as edições já realizadas, demonstramos a importância dos nossos insumos para o aumento da produtividade, da qualidade e da sustentabilidade da produção agrícolas brasileira. Na edição 2019, denominada Tecnologia e Integração, entendemos a importância de oferecer um conteúdo mais abrangente”, afirmou Roberto Levrero, presidente da Abisolo. 

Esta edição deste ano marca também o início de um processo de comunicação mais efetivo da Abisolo com o grande público urbano. “Acreditamos que quanto mais a sociedade conhecer a nossa realidade, com a contínua superação de recordes de produtividade, passarão a interagir mais com o agronegócio de maneira a compreender a nossa importância estratégica para a economia brasileira e para a segurança alimentar do Brasil e do mundo”, concluiu Levrero.

O GestAgro 360° fez a cobertura jornalística do evento a convite da Abisolo.

Anuário e pesquisas

Durante o Fórum Abisolo, foi feito também o lançamento da quinta edição do Anuário Brasileiro de Tecnologia em Nutrição Vegetal 2019, a consagrada publicação editada pela Abisolo, cujo download pode ser feito pelo link: www.abisolo.com.br/anuario

Também foi apresentado levantamento feito pela Andav – Associação dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários, por seu presidente executivo, Henrique Mazotini. Segundo ele, nada menos que 85% distribuidores de insumos agrícolas e veterinários planejam investir na ampliação de seus quadros, como técnicos agrícolas, veterinários e engenheiros florestais para reforçar suas redes de vendas. Um percentual menor, mas ainda expressivo (53%), revela planos de abrir novas filiais. 

“Esses resultados mostram que há uma grande oportunidade de integração para os industriais da área de nutrição vegetal”, afirmou Mazotini a uma plateia de aproximadamente 600 profissionais, técnicos e empresários da área presentes no evento. O dirigente da Andav afirmou que outra constatação do levantamento feito foi a de que o segmento tem como uma das maiores preocupações é o volume de crédito a ser concedido para os produtores para o financiamento dos insumos agrícolas. O estudo apontou que 19% dos entrevistados disseram que acesso a crédito é hoje uma das maiores dificuldades da distribuição.

O levantamento da Andav constatou ainda que, nos últimos cinco anos, vem se consolidando um cenário marcado pela entrada no segmento de grandes corporações e fundos de investimento nacionais e internacionais, originando os chamados “gigantes da distribuição”. Outro dado interessante é que 78% dos distribuidores afirmam que estão interessados em receber propostas de investimento de empresas e de fundos de investimento. Toda essa movimentação é reflexo da realidade de uma agricultura que, cada vez mais, demanda capital de giro porque é necessário mais investimento para auferir produtividade e competitividade.

Outra pesquisa apresentada foi encomendada pela Abisolo à Yeb Inteligência de Mercado e envolveu sondagem sobre perspectiva de crescimento para 2019 e a previsão é de uma expansão em torno de 21% no faturamento desse setor que, em 2018, alcançou faturamento bruto de R$ 7,6 bilhões, o que representa um crescimento de 19,3% sobre o resultado obtido em 2017. O segmento de fertilizante foliar representou 71% do total faturado; seguido por fertilizante organomineral, com 12% de participação, condicionadores de solo, com 10%; fertilizante orgânico, que teve 4%; e substrato para plantas, com 3% da receita global. 

A pesquisa está detalhada no Anuário Brasileiro de Tecnologia em Nutrição Vegetal 2019, lançado nesta quarta-feira (10) durante o VIII Fórum e Exposição Internacional – Tecnologia & Integração, que a entidade está promovendo em Campinas-SP até esta quinta (11). Do faturamento total do setor, 83,6% foram oriundos de produtos nacionais e 16,4% vieram de importações. Em termos de categorias comercializadas, os fertilizantes organominerais foram os que registraram maior crescimento de vendas, com avanço de 21% sobre o resultado de 2017.

Já por tipo de cultura, o estudo da Abisolo constatou que 47% das vendas totais do setor tiveram como destino a lavoura da soja; seguida de frutas, hortaliças e legumes, com 11%; milho, também representando 11% do total; café 9%; e a cana-de-açúcar, ficando com 6%. O restante foi dividido entre citros, algodão, feijão, pastagem, arroz, reflorestamento e plantas ornamentais.

No tocante a venda por tipo de produtos, o levantamento apurou que as vendas de Fertilizantes Foliares estão concentradas nas culturas da soja, frutas, legumes, verduras e milho; Fertilizantes Orgânicos em soja, frutas, legumes, verduras e café; Organominerais na soja, café e milho; os Condicionadores de Solo em soja, café e cana-de-açúcar; e, por fim, os Substratos para Plantas em frutas, legumes, verduras, fumo e silvicultura. Do total de 504 indústrias registradas hoje como ativas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 255 possuem organominerais em seus portfólios de produtos, enquanto 254 delas dispõem de fertilizante foliar. Em média, as empresas possuem 37 produtos em seus portfólios.

Considerando o volume de produtos vendidos, a estimativa do levantamento é de que foram comercializados 815,9 milhões de litros, sendo que, desse total, 54% foram de fertilizantes foliares, com um total de 441,3 milhões de litros, seguido de organomineral solo, que atingiu a marca de 373,3 milhões de litros. Já em termos de produtos sólidos, a pesquisa verificou que foram vendidos cerca de 7,4 milhões de toneladas de produtos. Nesse caso, o maior volume coube a condicionador de solo, com um total de 4,9 milhões de toneladas. Por último, no tocante a substratos para plantas, estima-se que foram vendidos 533,3 mil metros cúbicos em 2018.

A pesquisa da Abisolo também levantou a situação de empregos no setor e, nesse aspecto, a indústria de nutrição vegetal encerrou 2018 com um total de 19.600 postos de trabalho, o que significou uma ampliação de 5,4% frente ao quadro existente em 2017. Desse total de profissionais, 45% atuam na produção, 28% na área comercial, 21% no administrativo e 6% na área técnica. Um dado sobre a idade das empresas do segmento, o levantamento destacou que elas têm, em média, 17 anos, sendo que 32% delas estão com mais 20 anos de atividade, enquanto 16% operam a menos de cinco anos.

Por faixa de faturamento, 4% das empresas de tecnologia em nutrição vegetal possuem receita bruta superior a R$ 110 milhões, mas a grande concentração, 53%, faturam entre R$ 2 e R$ 20 milhões. Uma parte desse faturamento, 3,6% em média, são investidos pelas empresas do setor em Pesquisa e Desenvolvimento de inovações para o mercado.

A pesquisa da Abisolo constatou ainda que, nada menos que 97% das empresas reportaram aumentos nos seus custos de produção em 2018. Na média, os reajustes ficaram na faixa dos 13%, sendo que os aumentos nos valores das matérias-primas representaram 50% do total dos custos.

Em termos de região que mais utilizam tecnologia em nutrição vegetal, o levantamento da Abisolo verificou que Sudeste e Sul representaram, em 2018, mais de 50% do faturamento total do setor. Os estados que se destacam no ranking de uso são: São Paulo (19,97%), Minas Gerais (14,58%), Paraná (11,45%) e Mato Grosso (10,97%).

Esses quatro líderes consomem principalmente fertilizantes foliares, enquanto o Rio Grande do Sul aparece como maior usuário de fertilizantes orgânicos e substratos para plantas. 

O Brasil no cenário global

Uma numerosa e atenta plateia foi o ponto alto do Fórum Abisolo 2019

Mesa redonda sob a mediação do  jornalista Willian Waack reuniu quatro profissionais referência em suas especialidades: Elisio Contini, da Embrapa SIRE Brasília, que enfocou O Futuro é Agro – Proposta de Plano de Governo 2020/2030; o pesquisador Guilherme Casarões (FGV-EAESP), que tratou do Rearranjo das Relações Internacionais e os Impactos no Agronegócio Brasileiro; o professor Carlos Melo, do INSPER, responsável pela apresentação da Força do Agronegócio no Novo Cenário Político; e o economista José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados, que discorre a respeito das Perspectivas para a Economia 2018-2020.

Destacando a agricultura no cerrado como uma das mais significativas conquistas da agricultura brasileira, Elísio Contini creditou à inovação o forte crescimento registrado pelo agro brasileiro nos últimos anos: “Acredito que toda evolução registrada em ganhos de produtividade de 1975 até hoje na agricultura se deve à tecnologia e menos a fatores como terra e trabalho”, enfatizou.

Guilherme Casarões, professor da FGV, discorreu sobre a nova geopolítica do mundo, que, segundo ele, “aumenta a disputa entre países em âmbito comercial ao mesmo tempo em que mudanças do clima se impõem ao lado de temas como aquisição de terras estrangeiras como temas globais, despertando inquietações”. Ciente de que o Brasil é “um player reconhecidamente competente na produção de alimentos”, recomendou atenção especial “ao aparecimento de novos integrantes desse grupo, como Angola, Moçambique, Mongólia e, sobretudo, a Rússia, que vem se movimentando para ocupar espaços no fornecimento de alimentos”.

Já o professor Carlos Melo chamou a atenção para o papel desempenhado pelo produtor rural nesse atual momento político. “O que se nota é que há uma grande discrepância entre a força econômica gigantesca que o agronegócio tem consolidado nas últimas décadas e sua força política perante os governos e também nas negociações parlamentares. Entendo que a bancada ruralista é grande, porém atua de forma fragmentada. Há ainda uma questão de que o setor falha na sua comunicação com a sociedade de forma geral”, observou Melo.

Encerrando as apresentações desse painel, o economista José Roberto Mendonça de Barros listou os principais pontos de uma agenda para o agronegócio, que envolve, entre outros temas, foco no investimento na infraestrutura e logística, intensificação da adoção de técnicas da agricultura de precisão e pensar o agro muito mais sintonizado com a indústria”, observou, listando, entre os ganhos para a agricultura, tanto com investimentos na melhoria da infraestrutura de logística, quanto na adoção de práticas da Agricultura de Precisão, “casos comprovados de que, por exemplo, a melhoria da ligação rodoviária com o Arco Norte até o Porto de Miritituba-PA, significa ganhos de R$ 10 por hectare para o produtor de grãos do Centro-Oeste. Ou a intensificação do uso das ferramentas da Agricultura de Precisão que possibilitam redução de até 20% no uso de defensivos. Tudo isso significa reforço na Agenda da Produtividade, um tema do qual vocês da área de nutrição vegetal são parte importantíssima”.

Recordando que, no período 2014-2018, enquanto o PIB do Brasil recuou 4,7%; os serviços tiveram queda de 3,2%; a indústria amargou declínio de 10,2%; e a construção civil desabou 26%, o agro cresceu 10%, Mendonça de Barros afirmou que, “para continuar nesse ritmo, será preciso seguir elevando a produtividade, avançar na agricultura de precisão e na conectividade do campo, desenvolver novas modalidade de crédito, ampliar o seguro rural, avançar em práticas de produção sustentável e cuidar bem do uso de recursos como a água”.

Redução de custos e aumento da produtividade canavieira

Parte da plateia lotada do Fórum Abisolo 2019

O agrônomo Carlos Eduardo Faroni, executivo da Biosev, em sua apresentação sobre Ganhos de Produtividade na Cana-de-Açúcar a Partir da Aplicação de Nutrientes via Folha, informou que, entre os indicadores que comprovam a eficácia dos fertilizantes especiais no aumento da produtividade, estimativa feita por produtores indica que, para cada R$ 1 utilizado em aplicações de nutrição foliar, há um retorno de R$ 4,00 para o produtor. Esses dados, divulgados por produtores, mereceram uma ressalva do palestrante: “É preciso muito critério e detalhada análise antes de se fazer as aplicações de nutrição foliar, por exemplo. De nada adianta investir no uso da nutrição vegetal em canaviais estressados por falta de água ou solo empobrecido”, afirma. 

Postura semelhante foi manifesta pelo professor da Unesp de Botucatu (SP), Carlos Alexandre da Costa Crusciol. “O que é necessário é encontrar um equilíbrio nutricional. Como os compostos estão cada vez mais complexos, o recomendável é manter a frequência na pulverização de nutrientes nas folhas. Se você coloca muito nutriente, a planta se intoxica, pois vários dos seus organismos não consegue absorver integralmente os nutrientes. Eu diria que nós temos de praticar quase que uma nutrição homeopática”, frisou. 

João Pascoalino, diretor do CESB – Comitê Estratégico Soja-Brasil, aprofunda a avaliação de que um ambiente estressante para as plantas reduz os bons efeitos da nutrição vegetal. “Um fator que impede o bom aproveitamento das novas tecnologias de nutrição vegetal é o fato de a lavoura ter um solo compactado demais”, observa. Acrescenta ainda que um solo compactado resulta em menos infiltração de água, que colabora para aumentar o estresse hídrico da planta e também dificulta um melhor enraizamento, levando a planta a gastar muito mais energia para alcançar maior profundida, o que resulta em menos energia para os grãos e, consequentemente, menor produção.

Parte técnica e científica

Processamento de Imagens com Enfoque em Nutrição de Plantas, a cargo de Lucio de Castro Jorge, da Embrapa Instrumentação; e Substâncias Húmicas: Uma Nova Abordagem para a Valorização dos Fertilizantes Orgânicos Compostos, a ser proferida por Elke J.B. Cardoso, da ESALQ, foram temas técnicos desenvolvidos no Fórum Abisolo.

Neste ano, a parte científica do evento ganhou um peso acadêmico ainda maior por incluir duas palestras internacionais: a professora Maria Del Carmen Salas Sanjuan, da Universidade de Almeria-Espanha, tratou do tema Fertirrigação – Manejo de Nutrição e Ferramentas de Controle e Diagnóstico; e a pesquisadora Victória Fernandez, da Universidade Politécnica de Madrid-Espanha abordou a temática Nutrição Foliar – Fundamentos Científicos e Técnicas de Campo.

Crédito foto: Giancarlo Giannelli/LZP

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here