ENTREVISTA EXCLUSIVA – Agricultura digital ao alcance de todos: projeto aproxima produtor da tecnologia

A evolução da tecnologia tem contribuído para a otimização das atividades agrícolas e beneficiado produtores em todo mundo, e no Brasil não é diferente. Com a intenção de capacitar o produtor a usar as novas tecnologias, empresas desenvolvem projetos diversos.

Para falar sobre a relação entre produtor rural, tecnologia, e provedor de soluções de hardware e software, GestAgro 360° entrevistou, com exclusividade, Márcio Duarte, diretor de Desenvolvimento da InCeres. Ele falou, por exemplo, sobre a maturidade do agronegócio com relação à Agricultura de Precisão, o papel do produtor para avanço do processo, a dificuldade de relacionamento do produtor com a tecnologia e o papel do big data. Discorreu sobre as dificuldade decorrente do fato de os fornecedores de tecnologia não deterem conhecimento de agronomia e da visão do agricultor de que a tecnologia vai aumentar o trabalho.

A solução para essa dualidade, segundo o entrevistado, quando se fala em agricultura de precisão, agricultura digital, digitalização do agricultor, uma das coisas que é fundamental é realmente focar no valor e se aproximar do agricultor. “Se ficarmos só no universo da tecnologia e tentar entregar tecnologia, achar que temos uma ideia fantástica que vai resolver o problema do agricultor, podemos nos distanciar muito disso. A experiência que temos aqui na InCeres é essa. Muitas das coisas que idealizamos quando conversamos com o agricultor, vemos que aquilo não é fundamental nem importante para ele”.

Para equacionar essa situação, Duarte recomenda: “Vá com ele, converse com ele, passe os dias em uma fazenda com ele, sinta as dores dele e produza uma tecnologia que vá favorece-lo nessas dores. Trabalhar sobre os pontos que mais doem no agricultor é um grande foco, porque o agricultor hoje está disposto a jogar dinheiro em qualquer coisa que tire essas dores dele e resolva essas dores dele. Se apontarmos a ele a direção errada, ele criará um estigma com a tecnologia e isso vai gerar um retardo nesse avanço que a tecnologia está tendo. Então, conhecer o problema do agricultor e estar do lado dele, para mim, é uma coisa muito importante que a gente teria que se preocupar bastante, como empresas desenvolvedoras”.

A InCeres, dando sua colaboração para reduzir a distância entre agricultores e desenvolvedores de soluções, mantém projeto socioeducativo denominado “Agricultura Digital ao alcance de todos”, com o webinars gratuitos com o objetivo de incentivar o mercado agro, os profissionais do campo e também os produtores rurais à imersão nas novidades tecnológicas de diferentes setores do agronegócio. É desenvolvido pela InCeres em parceria com universidades e instituições de ensino de excelência do Brasil para compartilhar conhecimento, tecnologias e inovações a profissionais do agronegócio, estudantes e produtores.

Confira e boa leitura!

Qual o patamar de maturidade do agronegócio em relação à Agricultura de Precisão?

Quando formos falar em Agricultura de Precisão, é preciso separar equipamentos e aplicativos (hardware e software). Em termos de hardware, há uma adoção maior, pois todas as empresas que hoje produzem um tipo de hardware, já o produzem com capacidade para aplicação em taxa variada, e a maioria das pessoas que tem esse equipamento faz esse tipo de aplicação em taxa variada. Isso é a Agricultura de Precisão. Eu entendo que 18% da agricultura hoje já tem essa capacidade. Em termos de software a adoção é menor porque a maneira como é feita a taxa variada não depende muito certamente de software. Os dados são tirados diretamente da máquina e, além disso, o retorno desses dados da máquina, do software para o analítico, é muito pequeno. As pessoas simplesmente usam os dados, usam a máquina para aplicar a taxa variada, mas não recuperam isso. Então, acredito que cerca de 8% das pessoas que fazem a agricultura adotam uma maneira de processar essas dados gerados nos equipamentos.

Quais as dificuldades a serem vencidas pelo produtor para que o processo avance?

A grande dificuldade para o produtor é aceitar que a tecnologia vai ajudá-lo. Então, hoje, infelizmente, a tecnologia ainda é alguma coisa que fica “atrapalhando” o produtor, algo que fica no meio do caminho. Por exemplo, o agricultor está preocupado em tirar a soja da lavoura e colocá-la no silo. Se ele tiver de parar para fazer regulagem de trator, para regular sensor de coletor, ele não quer, porque isso é estressante, então o grande desafio está, na verdade, na aceitação da tecnologia e no entendimento de que, mesmo que ele gaste um tempo a mais para colher aquela soja, o retorno futuro será maior, porque ele usará a tecnologia a seu favor. Hoje, isso tem sido muito difícil de ser enxergado pelo produtor, e, por isso, na visão dele, a tecnologia está atrapalhando. Então, para mim, a grande dificuldade a ser vencida pelo produtor é aceitar a tecnologia e incluir a calibração, o ajuste, o refino dos equipamentos no processo de produção dele, diminuindo a ansiedade.

Quais os gargalos para os fornecedores de tecnologia?

Hoje, o grande gargalo dos fornecedores de tecnologia é não ter o conhecimento de agronomia. Hoje os fornecedores de tecnologia só fornecem tecnologia pela tecnologia e muito dificilmente têm algum conhecimento agronômico que justificaria o uso daquela tecnologia. Por isso, o gargalo está no entendimento da agronomia e na entrega de valor real para o produtor. O fornecedor de tecnologia precisa encontrar um nicho ou uma área ou algum valor real e produzir coisas que atendam ou resolvam esse problema específico.

Como o produtor pode contribuir com os fornecedores de tecnologia para reduzir esse gargalo?

Uma vez que o produtor aceite a tecnologia o gargalo é reduzido. Como exemplo temos a Fazenda Pinhalzinho, uma fazenda que tem recorde de produção de cana-de-açúcar e soja no Brasil, e eles conseguiram atingir esses resultados após aceitarem a tecnologia. O próximo passo é o produtor de se aproximar das empresas de tecnologia e contar para eles quais são as suas dificuldades e saber expor isso para essas empresas. É um trabalho importante para o produtor, ou seja, ele tem de gastar um tempo se aproximando dessas empresas e dando feedback, tipo “isso resolve meu problema” ou “isso não resolve meu problema”. O agricultor precisa se abrir e dizer quais são os problemas dele e ouvir, da empresa de tecnologia, como esses problemas serão resolvidos. Basicamente, o que precisamos é de conversa, é unir essas duas pontas, porque um está só na expectativa de produzir tecnologia e vender tecnologia pela tecnologia e o outro está na ponta de que ele acha que qualquer tecnologia vai resolver qualquer problema dele. O discurso está errado, as pessoas estão olhando para lados opostos. É preciso um se aproximar mais do outro.

Como o big data está estruturado e quais os ganhos que ele traz a curto, médio e longo prazo?

O big data não é estruturado e não existe uma forma de estruturar o big data. Nós estamos falando da técnica Big Data, não do fato. Ter um big data é exatamente ter uma quantidade absurda de dados, não estruturados, não organizados, não planejados. Agora, em termos de uso do big data, como nós estamos estruturando o uso do big data, existem várias etapas. A primeira delas é identificar os dados que já se tem e normalizar esses dados, tentar transformar esses dados em um modelo que seja padrão e que você seja capaz de organizá-los em um modelo único e, a partir daí, o próximo passo é, como esse monte de dados que eu tenho, o que eu posso extrair de informação útil que vai gerar valor para o meu fazendeiro. Então, nesse momento, a maneira que estamos estruturando isso é, normalizando, olhando para esses dados e extraindo informações. O próximo passo, após extrair essas informações, é buscar conhecimento em cima dessas informações. Então, hoje, o big data na agricultura está no primeiro passo, que é organizar e classificar os dados, tentar normalizar isso. O próximo passo, que a InCeres já está buscando, é extrair informação desses dados. E tem as outras duas etapas que a gente está um pouco longe ainda e, a gente, quando eu falo, é mercado de agricultura no Brasil, porque nós da InCeres já estamos um pouco mais próximos, extrair conhecimento dessas informações e, a partir daí, determinar ações para o usuário. Hoje, o que o usuário, que é o agricultor, quer é uma ação. O conhecimento para ele é bom, a informação para ele é útil, mas é a ação que ele precisa. Sendo assim, o grande apelo para você permitir e fazer com que o agricultor abra mão dos dados dele é dizer para ele que vai dar a ele essa ações palpáveis, que poderão ser aplicadas na fazenda e melhorarar a produtividade dele, diminuindo o custo de operação.

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